Kinaya Beleza Afro - blog pessoal - Quell Alves

Kinaya Beleza Afro - blog pessoal publicou um texto, reproduzido abaixo, que me fez pensar na força de Sansão. O cabelo é uma dos nossos grandes marcadores de identidade e por isso sua valorização nos mantém de pé. 
Para conhecer o Kinaya, acesse: https://www.facebook.com/kinayabelezaafro

"- Ô menina, e esse cabelo aí? Me empresta pra ariar panela? - diziam na escola.
- Ô garota, e esse cabelo aí? Me empresta pra varrer meu quintal? - diziam na rua.
Meu cabelo é o que de pior existe em mim! - eu dizi com raiva.
-Coloca o pente quente no fogo porque hoje tem festa - dizia minha mãe 
Mas não a culpo. Não mesmo. Jamais culparei vítima. 
Dia de lavar o cabelo se pareciam com cenas de tortura. Cabeça dentro do tanque, água gelada e muito sabão em barra. Desses de lavar roupa mesmo. E era só sabão... que mané condicionador o quê?

Agora vinha a parte doída, a pior parte, eu costumava dizer. Óleo de lavanda como leave-in e mão na massa! Ou melhor, no pente. E no crespo!
- Ai, ui, aaaaaaaai mãe, tá doendo!!
- Tem que desembaraçar ué!
- Mas faz devagar!
- Devagar dói mais. Tem que ser rápido pra acabar logo.
E depois de muitos 'ais, uis', minha cabeça está doendo e meu couro cabeludo latejando. Meu pescoço está mole. Não consigo ter firmeza.
- Segura essa cabeça! Eu puxo o pente e sua cabeça vem junto! Assim não consigo desembaraçar!
- Ta.

...
...
...
- Mãe, falta muito?
- Não. Tá acabando.
...
...
...
...
...
- E agora, mãe? Falta muito?
- Não. Eu já disse. Tá acabando.

- Comigo principalmente. - eu pensava.
O penteado eram tranças embutidas. Clássico. Meu crespo não ficava solto. Era soltar, lavar e trançar novamente. Por isso crescia tão forte e bonito. Não tinha shampoo, nem condicionador. 
Eu lembro dele. Era lindo. Mas o mundo me ensinava a odiá-lo. E eu odiava.
Fui crescendo e querendo cuidar de mim ficando igual a todo mundo. 
- É isso. Vou alisar! Mãe, quero alisar! 
Fui de henê. Aquilo não alisava meu cabelo nem por decreto. Só o deixava cada vez mais azul marinho de tão preto.
Mas eu seguia usando. Quem sabe um dia ele desse resultado como o de minha mãe, que de costas mais parecia uma índia.

Não alisou. Nunca. Não com henê. 
Mas vieram outros alisantes depois. Muitos, muitos outros. Alisaram, mas derrubavam também. Careca em algumas partes da cabeça e com cabelos curtos em outras. Cena comum diante do espelho. Tão comum que passou a ser normal.
E aquele cabelo forte lavado com sabão em pedra comum? Não existia mais? Existia. Quimicamente modificado, desestruturado, acabado. 
- continua tentando. Uma hora você acerta no alisante correto - dizia o cabeleireiro do salão. 
Eu acreditava. Piamente. 
- É isso. O problema é encontrar o alisante certo, mas eu vou achar! - eu dizia toda confiante.

E lá se foram mais anos em busca de espaço na sociedade, tentando me encaixar no padrão. 
- Se pelo menos fosse cacheado, né? Mas não. É crespo de tudo! - o mundo dizia. 
- Esse alisante é bom. O da minha vizinha é lindo e ela usa esse. - continuava o mundo.
-Uau. Também quero. - eu dizia animada.
Meses depois lá estava eu diante do espelho. Diante da cena "comum". Praticamente careca. Chorava. Muito. 
Brigava com Deus: Somos inferiores sim! Não tem outro motivo pra me dar um cabelo desses! - eu dizia entre um soluço e outro.

Há uns 2 anos aquele cabelo forte do tanque voltou depois de 23 anos quebrando a cara (e o cabelo). Mas o melhor de tudo é que voltou acompanhado. E muito bem acompanhado! 
Autoestima e consciência negra são suas parceiras inseparáveis. E tenho visto o empoderamento dando um rolê nas quebradas com eles também. O quarteto tá abalando por aí, dando a cara a tapa. Ouvi rumores de que tá feio. Mas o empoderamento logo toma minhas dores e me defende. Nem preciso brigar porque o quarteto briga por mim. 
Agora sou livre e os ataques do mundo já não surtem mais efeito sobre mim. Liberdade. Livre. Leve. Solta. Do jeitinho que vocês odeiam. Desculpe, mas é que pra mim, ser diva nunca foi opção. Está em mim. Acostumem-se."

Por Quell Alves

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